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“Se vais para a guerra tens de estar pronto a morrer” – Entrevistas


Ranulph Fiennes deu a volta ao mundo, sobreviveu à guerra e matou homens. Em conversa com a SÁBADO, o explorador “mais aventureiro do mundo” explica como se evita a morte em situações extremas.


É provavelmente o “homem mais aventureiro do mundo”. A descrição é do livro dos recordes do Guinness, em 1988, sobre os feitos de Sir Ranulph Fiennes. Fez a Antártica a pé e liderou entre 1979 e 1982 uma expedição para fazer uma volta vertical ao mundo, de polo a polo, pela primeira vez na história da humanidade, que ficaria conhecida como Transglobe Expedition. Mesmo aos 65 anos, subiu o monte Evereste. Para não falar das perigosas histórias que foi colecionando em forças especiais: primeiro, para seguir as pisadas do pai, juntou-se à força britânica de cavalaria Royal Scots Greys, onde ascendeu a capitão; depois, no regimento Special Air Service (SAS), onde acabaria por ser expulso por explodir parte do set do filme Dr. Dolittle. Em finais dos anos 60, ainda serviu o exército do sultão de Omã na luta contra comunistas. Hoje, com 78 anos, tem muitas histórias para contar, retratadas ao longo dos seus 24 livros. Um dos mais recentes chama-se Forças de Elite, lançado em 2019, traduzido para português este ano pela editora Vogais.

No seu livro Forças de Elite fala de vitórias improváveis. De exércitos, como os ninjas ou os espartanos, que conseguiram dar luta a inimigos muito mais numerosos. Alexandre o Grande, por exemplo, ultrapassou situações improváveis de guerra – morreu anos mais tarde de doença, como descreve no livro. Quando temos a probabilidade contra nós, como é que se sobrevive à guerra?
Em 1968, eu liderava um grupo de 30 soldados do exército do sultão de Omã. Lembro-me de umas montanhas controladas pelo inimigo – nós éramos 280 no total, eles cerca de três mil. Quando cheguei, havia um plantão de reconhecimentos que era enviado em pleno dia para aquela zona. Como eles não paravam de morrer, tive de mudar o modus operandi. Apliquei o que aprendi na SAS: operações de reconhecimento só à noite. E mais: antes de começar a operação, obrigava os meus homens a saltar para cima e para baixo para ver se não faziam barulho. Se alguém começava a tossir, então não se juntava à operação. Por causa disso, às vezes éramos poucos. O silêncio era vital. Em dois anos e meio, apenas morreram cinco. Foi uma grande melhoria. É para estas coisas que somos treinados: encontrar maneiras de evitar a morte.

Neste caso, estavam numa situação de desvantagem.
Éramos pequenos plantões de patrulha de quatro homens com duas metralhadores, um walkie-talkie, a que recorríamos apenas em código morse. O silêncio era estratégico e funcionava.

Descreve no livro como teve “grande dificuldade” a matar um inimigo a curta distância em Omã. Diz que “o ar triste e surpreendido do homem” o acompanhou “durante muito tempo”.
Um dia, o homem dos serviços de inteligência do sultão pediu-me: “Hoje vais seguir esta fonte da inteligência para uma área onde não temos qualquer homem no terreno.” Levou-me para 32 quilómetros dentro de território inimigo nas montanhas. Deparámo-nos com um inimigo e eu disse: “Mãos ao ar.” Ele empunhou uma kalashnikov e eu não tive outra opção senão disparar.

E estava pronto para morrer a qualquer altura?
Se vais para uma guerra e não estás pronto para morrer, então não consigo perceber a mentalidade. Eu sempre quis estar na guerra e seguir as pisadas do meu pai.

Fala com muito orgulho do seu pai, tenente-coronel na cavalaria Royal Scots Greys, que teve de se adaptar às novas realidades da guerra: deixou os cavalos de lado e aprendeu a manobrar tanques. No livro, descreve várias “missões impossíveis” dele na II Guerra Mundial. Por exemplo, na Batalha de El Alamein, conseguiu deter o avanço dos panzers alemães de Rommel, apesar de ter ficado três dias fechado em tanques, sem dormir, a conduzir entre minas e terrenos de lama, e de ter sido ferido com estilhaços de granadas. Ele morreu quatro meses antes de você nascer. Onde ouviu histórias do seu pai?
Sim, um historiador mostrou-me onde ele morreu. Foi morto em Nápoles por causa de uma mina. A minha mãe foi-me falando dele e tudo o que sempre quis para mim era ser como ele. Foi por isso que me juntei ao mesmo regimento escocês [Scots Greys]. Tentei entrar no curso dos oficiais, mas na altura era preciso passar um exame. Ainda vivíamos numa época de transição de cavalos para tanques e eu não era inteligente o suficiente para passar o exame. Tive de tirar outro curso especial e cheguei a capitão. Ainda me cheguei a juntar às forças especiais SAS mas infelizmente acabei por ser expulso. Usei explosivos militares para rebentar com propriedade civil no Reino Unido.

Como assim?
Há uma vila no Reino Unido chamada Castle Combe, que foi eleita a vila mais bonita de Inglaterra. Um amigo meu, que era um vendedor de vinho na vila, descobriu que os moradores estavam muito infelizes porque os estúdios 20th Century Fox estavam a construir uma barragem de cimento para um filme neste vila lindíssima. O filme chamava-se Dr. Dolittle. Ele decidiu então que se devia explodir essa barragem. Nessa altura, eu tinha completado um curso de demolição e tinha muita coisa no meu carro… Bem, passei a noite na prisão, levei uma multa gigantesca e fui expulso da SAS.

Dedica um capítulo do seu livro à SAS e Royal Scots Greys, forças que conhece na primeira pessoa. Mas vai além: por ordem cronológica, dos 10 mil Imortais do Império Persa de Ciro aos Navy Seals norte-americanos, passando por Hugh Dowding, que dotou a Royal Air Force com caças Spitfire para fazer frente à vantagem aérea da Alemanha Nazi, o livro Forças Especiais foca-se em esforços heroicos de guerra. Na guerra, este ângulo é o que mais lhe interessa?
Sempre me interessaram mais os homens que constroem façanhas. Faz parte do meu ADN: já a minha família ajudou durante muitos, muitos anos a Coroa. O Rei William I venceu a Batalha de Hastings com a ajuda de dois antepassados meus, liderando exércitos com o nosso brasão de família, que ainda se pode ver no nosso castelo na Normandia.

O livro é de 2019. Se tivesse de escrever mais um capítulo em 2022, dedicaria algum às forças ucranianas que resistem à invasão russa?
Eu não conheço bem a situação, mas admiro os ucranianos por não se renderem, mesmo contra um exército tão grande como o russo. E é absolutamente vital que a NATO e os Estados Unidos continuem a apoiar a Ucrânia.

Ao longo do livro, descreve episódios das suas expedições, nomeadamente a Transglobe Expedition, uma volta ao mundo vertical, de polo a polo.
Essa expedição foi assim: em 1970, depois de eu e a minha mulher casarmos, decidimos fazer das expedições o nosso ganha-pão. A principal regra era: não pagamos a ninguém. Equipamento, serviços, equipa, é tudo gratuito. Juntámos dinheiro a trabalhar em pubs londrinos e, 10 anos depois, a contar o planeamento e execução, conseguimos. Fizemos o que mais ninguém na história havia feito, nem os grandes navegadores de Portugal e Espanha. E conseguimos juntar 1.900 patrocinadores.

Fala dos navegadores portugueses. Ao longo da sua investigação para o livro, não se deparou com a história de Portugal?
Na escola, ensinavam-nos a história portuguesa da navegação e que vocês são dos melhores povos marítimos do mundo. E tenho amigos em Sagres que já me falaram da história de Portugal com orgulho.

Para ser recrutado para o SAS, teve de atravessar o rio Wye com temperaturas geladas, correr 20 quilómetros no meio da noite e planear o roubo de um banco. Aqui em Portugal, já tivemos polémicas e mortes em cursos de forças especiais, concretamente nos Comandos. Qual será o futuro destas forças especiais?
As provas de recruta das forças de elite não vão mudar. Vão ser sempre duras. A grande mudança será o uso de tecnologia. Com a inteligência artificial, vamos poder ter mais informações sobre os nossos inimigos. Também existem os drones. Existe ainda uma discussão sobre o Serviço Militar Obrigatório, reintroduzido em países como a Letónia devido à invasão russa. 




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