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João Grosso: “Formei-me no combate ao medo. Os outros que me queriam negar, exaltaram-me, fizeram-me lutar por aquilo que me pertencia”


Esta conversa começa por evocar a memória da enorme atriz Eunice Muñoz. No último adeus a Eunice, na Basílica da Estrela, em Lisboa, o ator João Grosso recordou as tantas gargalhadas que deu com a atriz à saída do palco para os bastidores. Quis celebrar a alegria num momento de profunda dor. “Quando acabava uma cena complicada com a Eunice e saíamos de palco juntos ela dizia: ‘A nossa profissão é mesmo de doidos, não é?’ e ríamos.” Para o João, ela era a mãe Eunice, pelo tamanho laço afetivo que os unia. E lembrou a primeira vez que contracenou consigo em palco, há mais de 30 anos, no espetáculo “D. João e a Máscara”, de António Patrício, com encenação de Mário Feliciano no Teatro da Politécnica. João Grosso fazia de D. João e Eunice fazia gloriosamente de morte.

Largamente premiado no teatro, João Grosso é sempre um colosso em palco, pela sua voz de timbre grave – que vai buscar a grandiosidade dos deuses – o exímio domínio do corpo e o rigor com que leva as palavras e a verdade das personagens e dos poetas ao coração e às tripas de quem o assiste. É sempre uma maravilha ouvi-lo a interpretar ou a declamar poesia, sempre com “um amor à língua portuguesa como poucos têm”, como afirma neste episódio o poeta Tiago Torres da Silva. E há em si um eterno lado desassossegado e inconformado sempre disposto a questionar as formas rígidas de se fazer as coisas e uma coragem de quem dá o corpo às balas para se atravessar perante injustiças.

nuno botelho

Neste episódio em podcast é recordado o momento em que João Grosso cantou o hino nacional em versão ‘punk rock’ na televisão pública no programa juvenil “Fisga”, que apresentou em 1987, para criticar um certo nacionalismo e imperialismo que lhe valeu um processo em tribunal e foi parar à secção da PJ dedicada ao terrorismo e banditismo… E recorda-se também do momento particularmente traumático para si, em que foi severamente espancado por um grupo de skinheads para proteger a vida de um rapaz. O João é feito desta fibra. “Quando assisto a uma situação de injustiça ou de violência profunda, solta-se uma mola e tenho de intervir”. E ainda acrescenta: “Não concebo a minha vida sem generosidade ou sem os outros incluídos. A minha pulsão é primordialmente coletiva.”

O João, que além de ator residente do Teatro Nacional D. Maria II, é encenador e professor, transportou recentemente o público no tempo até… 1983 e a uma certa paragem de autocarro, envolta em neblina, estigma e solidão. Trajado de cabedal preto, lenço vermelho no bolso das calças, habitou durante algumas tardes a tocante e importante obra “1983”, de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, na Galeria Rialto 6, na Rua do Conde Redondo, a fazer justiça histórica e poética às pessoas mais marginalizadas e maltratadas da nossa sociedade, não as esquecendo.

1983, ano das primeiras notícias sobre a Sida em Portugal: um ano depois da descriminalização da homossexualidade no país, um ano antes da morte de António Variações. Cá fora uma pastelaria, com letreiro em néon, com bolos cobertos de bolor.

nuno botelho

Algumas pedras da calçada estão agora gravadas a laser com o nome de transexuais e travestis que trocaram naquelas ruas prazer por uma possibilidade de existência. E, à entrada, o poema “Pastelaria”, de Mário Cesariny. “O ódio ainda anda por aí. Combate-se o ódio com Educação e Cultura”, afirma João Grosso neste episódio, e assume ter passado por uma adolescência de grande sofrimento, repressão e invisibilidade numa época em que a homossexualidade era apontada como marginal e a sua prática era crime.

João Grosso, que é parte da memória viva do teatro português, com extenso currículo também na televisão e no cinema, afirma que não se leva muito a sério e que policia a sua vaidade. “Tento ter uma posição crítica em relação à minha vaidade. Faz-nos entrar numa pescadinha de rabo na boca e a laborar no nosso centro e não saímos daí.”

E comenta outro estigma que tem sentido, por pertencer a uma geração entalada entre os mais velhos e as gerações mais novas que o têm deixado de lado na escolha de vários encenadores. Atualmente anda pelo país com o espetáculo “Última Hora”, de Rui Cardoso Martins, com encenação de Gonçalo Amorim, comenta ainda os primeiros tempos difíceis em que teve de sair de casa dos pais para viver do teatro e os maus olhos dos outros para quem escolhia o teatro como profissão. “Durante muito tempo ser-se ator era fazer-se parte dos marginais. Para mim, ainda bem.”

nuno botelho

Mas esta conversa corre para muitos mais temas e lugares, onde não falta a poesia. “A poesia provoca-me bem estar. Ando sempre às voltas com os textos. Os poemas para mim são como canções e descobrir-lhes essa música é o mais difícil que há.” E interpreta dois poemas, um de Sophia e outro de Cesariny. E ainda nos dá música.

Como sabem, o genérico desta nova temporada é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos são da autoria de Nuno Botelho. E, desta vez, a edição áudio deste podcast é de João Martins.

Voltamos para a semana, com mais uma pessoa convidada. Até lá escrevam-nos, comentem, classifiquem o podcast e, já sabem, pratiquem a empatia e boas conversas!



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