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Ex-espião pró-russo: como ele saiu da secreta para o Conselho de Ministros, uma viagem ao Irão e a ligação a três partidos



Alexandre Guerreiro, ex-espião, especialista em Direito Internacional e comentador televisivo alinhado com as posições da Rússia, é funcionário do Estado: pertence aos quadros da Presidência do Conselho de Ministros (PCM) desde 2015 e atualmente trabalha na equipa da JurisApp, o Centro de Competências Jurídicas do Estado. É um dos dois técnicos superiores afetos ao programa de limpeza legislativa Revoga+, que identifica os diplomas a revogar por estarem desatualizados ou ultrapassados.

Este analista de geoestratégia – com presença assídua nas redes sociais -, nega ser um agente de influência da Rússia ou sequer pró-russo, mas, dez dias antes da invasão da Ucrânia, participou numa conferência na MGIMO, uma das mais prestigiadas universidades russas, de onde terá saído um relatório para o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov. No entanto, não informou as chefias sobre a natureza dessa deslocação: “Não tenho de informar ninguém sobre os locais aos quais me desloco. Tenho apenas de marcar férias e foi o que fiz”, diz ao Expresso.

“Ninguém tem de saber os locais aos quais me desloco no âmbito da minha esfera privada. Mas acredito que sim [que sabiam], porque viram nas redes sociais”, explica. “Quem diz Moscovo diz Copenhaga”, onde também já participou numa conferência académica. Em resposta ao Expresso, a PCM concorda que o Estado nada tem a ver com isso: “Não é do conhecimento da JurisAPP qualquer ausência do trabalhador do seu posto de trabalho fora dos períodos de férias autorizadas, nem é devido que conheça as deslocações dos trabalhadores fora do horário de trabalho e que relevem da esfera da vida privada.”

O funcionário também não tem de comunicar a participação em comentários televisivos, mesmo tendo a Rússia como partido: “Nos termos da lei, a realização de outras atividades, desde que não sejam efetuadas a título profissional e não sejam concorrentes, similares ou conflituantes com as funções desempenhadas pelos trabalhadores nos seus postos de trabalho, não carecem de autorização do empregador público”, respondeu a PCM ao Expresso.

Sobre o facto de participar em eventos cujo conteúdo segue para o Kremlin – hoje inimigo das instituições integradas por Portugal, inclusive com ameaças de guerra nuclear -, a PCM não se pronuncia. Alexandre Guerreiro vê a Rússia “como dispondo de um sistema político democrático e livre, à semelhança dos sistemas ocidentais e em que há uma influência expressiva da religião na orientação da vida política e social”.

A saída dos serviços secretos e uma viagem ao Irão

Em junho de 2015, o antigo analista do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) foi exonerado da secreta e transferido para a PCM, por um despacho assinado por Pedro Passos Coelho, então primeiro-ministro, e Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, que criou aquele posto de trabalho que lhe manteve a remuneração base da sua categoria. Alexandre Guerreiro não foi beneficiado por esta nomeação: está previsto na lei que os espiões afastados dos serviços de ‘intelligence’ são colocados na PCM, exatamente para terem um lugar de recuo e não ficarem desempregados ou em estado de necessidade, à mercê do mercado das informações. É uma política de segurança. Mas Guerreiro mantém-se lá até hoje.

O ex-espião conta ao Expresso que saiu do SIED porque “o ambiente se tornou insustentável no serviço” – “ao ponto de haver perseguição a vários profissionais e violação de direitos laborais e até da lei em geral”, acusa. Não suportando mais “aquela situação”, ele e “um conjunto de colegas” reuniram “uma série de documentação a provar vários abusos” e entregaram-na ao Conselho de Fiscalização. Este conselho, alega ainda, “reuniu-se com cada um individualmente” e tentou culpá-los, a eles, “pelos abusos das chefias”. “A partir daí, perdemos a esperança na recuperação do serviço e começámos a abandonar o SIED. Vários por mobilidade e eu em cedência de interesse público. Uns saíram em definitivo e outros acabariam por voltar”. conta. Fontes das informações dizem que era difícil trabalhar com ele em equipa.

Outra fonte conta que, nessa época, foi mal vista, entre as chefias, uma viagem de férias, sem avisar os serviços, ao Irão, um Estado patrocinador de terrorismo, por considerarem essa iniciativa como uma vulnerabilidade. Foi em 2014, mas Alexandre Guerreiro não diz que isso tenha contribuído para a sua saída. “Fiz uma viagem de turismo ao Irão com outros dois colegas do serviço e outra pessoa fora dos serviços, que era irmão de um dos colegas”, assume. E conta: “A mim ninguém disse nada quando voltámos sobre essa viagem e à minha colega também não. A um outro colega é que a chefia disse que não apreciaram a viagem que fez, mas ninguém falou em mim e na minha colega.” Nessa altura, diz que já estava “à espera do resultado de um concurso para a Assembleia da República.” E recorda que, com pouca diferença de tempo, foi lá “o ministro Rui Machete com a mulher em visita de Estado”.

Alexandre Guerreiro pergunta: “De onde retira a ideia de o Irão patrocinar o terrorismo na altura em que eu fui?”. O Expresso recorda-lhe que o Departamento de Estado norte-americano considera o Irão um país patrocinador do terrorismo desde 1984, ou seja, 30 anos antes da sua viagem. Alexandre Guerreiro apressa-se a responder: “E Portugal o que diz sobre isso? Os EUA não têm jurisdição ou soberania sobre Portugal… ou têm? Uma coisa é a ONU qualificar um Estado como patrocinador do terrorismo. Outra é cada Estado fazê-lo.”

Militante do CDS e do PAN, foi rejeitado na IL e reconhece “mérito” a Ventura

Outra sobreposição que fontes ligadas aos serviços das informações consideram incompatível e contra a conduta de um funcionário de uma agência daquele tipo: o ex-espião foi militante do CDS e, em 2012, quando ainda estava no SIED, foi politicamente ativo na concelhia de Almada, ao ponto de querer ser candidato a presidente da Câmara nas autárquicas de 2013, confirmou ao Expresso o então líder concelhio, António Pedro Maco. Mas foi vetado pela estrutura. Era uma figura “estranha”, porque nunca ninguém percebeu o que ele fazia, dizia que trabalhava para o Estado. “Só soubemos depois que ele estava nos serviços secretos”, recorda Maco.

Alexandre Guerreiro diz ao Expresso que “não há qualquer proibição de participação em atividades partidárias pelos membros dos serviços”. “Aliás, veja a quantidade dos que sempre andaram próximos do PS”, acrescenta. Terá sido naquele ano que abandonou o partido. Começou por identificar-se com “um CDS que fazia uma oposição brilhante a Sócrates, com Paulo Portas”, depois sentiu que o seu voto foi “traído”: o partido “mudou completamente aquilo que dizia enquanto oposição para o que passou a fazer enquanto poder”.

Um par de anos mais tarde, passou para um partido de natureza oposta ao CDS: o PAN. Não se demorou muito, tendo entrado e saído no mesmo ano: 2014. Um dos “pontos de conflito” com o CDS era “a falta de visão para as causas ambientais e animais”, além de Guerreiro se assumir “completamente contra a indústria tauromáquica”.

O PAN estava a começar a ganhar força. E eu achava que um partido que estava a ganhar ‘calo partidário’ e a definir a sua identidade podia funcionar melhor do que um partido tão rígido e cheio de vícios como o CDS”, explica. Conheceu a então líder do PAN de Almada, com quem manteve “uma relação muito próxima durante algum tempo” e que concorreu à presidência do partido contra André Silva. “Só me filiei para ser mais um voto a favor dela. Mas nunca fui candidato a nada, nem internamente. Ela perdeu, saiu do partido e eu saí também. Não fazia sentido estar ali”, justifica.

Pela Iniciativa Liberal diz ter sido sondado duas vezes, tendo recusado na primeira e aceitado na segunda. Diogo Saramago, advogado, dirigente da IL e amigo de Guerreiro “há mais de 20 anos”, procurava “um candidato forte e combativo em Almada”. “Recusei por achar que o partido não tinha implantação mínima para podermos construir um projeto ambicioso”, conta Alexandre Guerreiro. Mas depois, com as eleições presidenciais, o partido conseguiu “uma visibilidade”, ainda que sem “correspondência prática em votos”, e deu a conhecer “várias ideias” que lhe suscitaram “curiosidade”. Foi então que aceitou. Problema: “Depois de ter dito que eu era candidato à estrutura de Almada, a IL Lisboa vetou o meu nome pelas minhas posições sobre a Rússia e Putin.” Uma fonte da IL confirma: “Fizemos o trabalho de casa, não queríamos esse dano reputacional.”

Alexandre Guerreiro assegura que não sondou nem foi sondado por nenhum outro partido. “Nada. Já para a IL fui relutante e fiquei vacinado. Aliás, com aquilo que vi no CDS e no PAN já tinha ficado. A IL foi a gota final e nunca fui militante.” Apesar de nas redes defender várias vezes André Ventura e o Chega, rejeita qualquer abordagem no sentido de uma filiação. “Nunca tive convites, sondagens ou aproximações do Chega. Nem tive curiosidade pelo partido, o que não invalida que reconheça mérito em vários aspetos a André Ventura e me revolte a tentativa de boicote a um partido que o Tribunal Constitucional avaliou e decidiu que devia ter os mesmos direitos e deveres que os outros”, defende.

Conheceu o presidente do Chega em 2014, na Universidade Nova de Lisboa. “Sempre tive ótima impressão dele. Um tipo normal, que gosta de convívios, com boa cabeça para o Direito e que se dava facilmente com qualquer pessoa. A última vez que estive com ele foi em 2015”, relata. De então para cá, diz que só envia a Ventura mensagens de aniversário através do Facebook e que o líder do Chega lhe deu os parabéns pelo doutoramento através da mesma rede.

“Sou a favor da prisão perpétua. Eu e 25 Estados-membros da União Europeia. Sou absolutamente contra a castração química e tive intervenções na TVI onde defendi este ponto, até contra a Suzana Garcia, que era a favor”, conta ao Expresso. Também tem posts contra a cultura LGBT: “Não me manifesto contra a agenda LGBT. Manifesto-me contra a segregação e atribuição de um estatuto especial a quem é igual aos heterossexuais. A menos que falemos de estrangeiros oriundos de determinados países onde a orientação sexual é punida ou motivo de perseguição social-” Como é o caso da Rússia de Putin, que Alexandre Guerreiro tanto admira.



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