News

Discurso em espelho: as questões de Marcelo e as respostas de Costa



Os dois homens conhecem-se tão bem, que António Costa parecia adivinhar o que Marcelo Rebelo de Sousa ia dizer no discurso da tomada de posse do Governo (resta saber se na sua imaginação foi capaz de prever aquele pé na porta para não ter tentações de ir para Bruxelas). Os dois homens até as mesmas palavras usaram por vezes, mas Costa, ao falar da maioria absoluta acrescentou umas palavas suas para Cavaco Silva ao discurso escrito que foi distribuído, ao dizer que fez “parte de uma geração que se bateu contra uma maioria existente que tantas vezes se confundiu com um poder absoluto”.

Se Costa emigrar há eleições. Mas há estabilidade até 2026

MARCELO: “Deram a maioria absoluta a um partido, mas também a um homem: Vexa. o primeiro-ministro, um homem que aliás fez questão de personalizar o voto, ao falar numa escolha entre duas pessoas para a chefia do Governo. Agora que ganhou e ganhou por quatro anos e meio, tenho a certeza que Vexa. sabe que essa cara que venceu de forma incontestável e notável as eleições, não possa ser substituída por outra a meio do caminho. É o preço das grandes vitórias inevitavelmente pessoais e intencionalmente personalizadas.”

COSTA: “Os portugueses resolveram nas eleições a crise política e garantiram estabilidade até outubro de 2026. Estabilidade não é sinónimo de imobilismo, é sim, exigência de ambição e oportunidade de concretização”.

Agora não tem desculpas ou alibis

MARCELO: “[Os portugueses] escolheram (…) mudar, dando ao partido do Governo, desta vez maioria absoluta. Assim dizendo que lhe proporcionam condições excecionais para sem desculpas ou alibis pode fazer o que tem de ser feito”.

COSTA: “A maioria absoluta que nos foi concedida não significa poder absoluto. Pelo contrário, a maioria absoluta corresponde a uma responsabilidade absoluta para quem governa. Ausência de alibis e de desculpas.”

Maioria absoluta não é uma ditadura da maioria

MARCELO: “Deram-lhe uma maioria absoluta. Não lhe deram, como numa democracia por definição, nem poder absoluto nem ditadura de maioria”.

COSTA: “Nunca o poderia constituir, nem eu o poderia interpretar. Faz parte de uma geração que se bateu contra uma maioria existente que tantas vezes se confundiu com um poder absoluto”.

Diálogo com todos

MARCELO: “Na maioria absoluta cabem todos os diálogos de interesse nacional, como todos, partidos, parceiros, setores sociais, económicos e políticos, com convergência de regime se fizer sentido, para não servir de argumento para não decidir e não fazer o que pode decidir e fazer bem por si só”.

COSTA: “Saberemos ser uma maioria de diálogo. (…) De diálogo parlamentar, político e social. Isso implica trabalho, em conjunto, com humildade democrática, com lealdade institucional, garantindo o envolvimento dos partidos políticos e parceiros sociais na criação de soluções que ajudem a encarar os desafios que o país enfrenta. Só comprometendo-os com o diálogo social, mobilizando a sociedade civil e acolhendo os contributos positivos dos outros partidos políticos poderemos continuar a avançar”.

Antes e depois da guerra: o mundo mudou

MARCELO: “Foi no dia 24 de fevereiro que todos nos vimos ao espelho e a imagem já não era a mesma. As Forças Armadas russas entravam em território ucraniano por ar, terra e mar (…), já de si uma agressão. De repente, todos descobrimos como tinha mudado.

COSTA: “Desta vez, a tormenta não nos dá sequer dois meses de estado de graça. Não há melhor otimismo, sr. Presidente, é a realidade. Estamos ainda a enfrentar a pandemia, a sarar as feridas que abriu, as feridas que revelou ou que agravou e já temos de combater os efeitos da guerra desencadeada pela Rússia com a invasão da Ucrânia.”

O choque energético, a inflação e o efeito nos mais carenciados

MARCELO: “[Esta seria uma] expressão que a Europa já não via há alguns anos: a imprevisibilidade económica e financeira aumentava, quem sabe se por uns meses se por uns anos, custava mais a energia, subia mais a inflação, era necessário atenuar o choque no bolso das pessoas, sobretudo das mais pobres e carenciadas“.

COSTA: “A guerra, não o escondamos, acrescenta um enormíssimo fator de incerteza às nossas vidas, à nossa economia familiar, à saúde das nossas empresas e, por isso, aos nossos empregos. Esta guerra (…) agrava a pressão inflacionista, que a rutura das cadeias de produção durante a pandemia e um mercado de energia disfuncional provocaram. (…) Precisamos, a nível nacional e europeu, de adotar as medidas de resposta a este choque adverso, em especial, assegurando que não há ruturas n o abastecimento, controlando o custo da energia e de matérias primas essenciais apoiando as empresas mais atingidas e as famílias mais vulneráveis”.

Os grandes desafios ou como enfrentar a tormenta

MARCELO: “Tudo o que seja possível se fará para ir protegendo os custos dos bens básicos, custos que a guerra agravou e que a virtual guerra fria pode agravar mais, e que não passemos da pandemia para a pandemia da inflação, sem controlo em clima de crescimento enfraquecido, ‘estagflação’, essa sombra dos anos 70 do século passado.”

COSTA: “Podíamos olhar para a tormenta e ficar em terra. Gerir sem ousar. Chorar a nossa sorte por viver em tempos assim. Abrigarmo nos até que a tormenta passasse Não é isso que os portugueses esperam de nós”.

A bazuca, o PRR, a pipa de massa

MARCELO: “Garantir que os fundos vindos de Bruxelas avançam depressa no terreno, para remendar o que há a remendar e construir o que há a construir.”

COSTA: “Esta é a nossa marca: modernização com solidariedade social. Fruto de anos de investimento nas qualificações e no reforço do nosso sistema científico e tecnológico da conjugação dos fundos estruturais com os recursos do PRR; da recuperada credibilidade internacional para a atração de investimento.”

A mobilidade social e exclusão, missões urgentes

MARCELO: “Que filho ou neto de pobre não esteja condenado a ser pobre. (…) Que filho ou neto de excluído ou descriminado não seja excluído ou descriminado. Estas são as missões mais urgentes.”

COSTA: “Assim nos exigem os nossos filhos e netos que querem participar na vida democrática e que sabem que a mudança depende deles. Que têm da sociedade uma visão atenta e cosmopolita, enformada pela ideia de que a liberdade é vital que a igualdade entre as pessoas não conhece limites porque se funde na dignidade humana”.

A relação do Presidente da República com o Governo:

MARCELO: “Aqui estou (…), na decisão mais ingrata ou arriscada, se necessário for, sem hesitações ou inibições, como aconteceu no estado de emergência ou na convocação de eleições antecipadas, como sempre institucionalmente solidário e cooperante (…) construindo e não destruindo, vigiando distrações e adiamentos quanto ao essencial, autocontemplações e deslumbramentos, tentando evitá-los para não ter de intervir à posteriori. No fundo, fazendo exatamente o que a Constituição prevê, o que Vexa. disse na campanha ser uma garantia decisiva de que a maioria absoluta se convertesse no que pode e não deve ser.”

COSTA: “O Presidente da República é o mesmo e o primeiro-ministro também. Assim, os portugueses podem contar com normalidade constitucional e a continuidade da saudável cooperação e solidariedade institucional que tanto têm apreciado e que são um inestimável contributo para o reforço das instituições democráticas e o prestígio de Portugal no exterior”.

Resistência e otimismo

MARCELO: “[Este é] um tempo dificílimo, a requerer humildade, desapego pessoal, resistência fisica e psíquica, acerto nos recursos humanos e meios de ação, transparência nos propósitos e nos factos e inabalável crença no futuro melhor para os portugueses e otimismo, sempre.”

COSTA: “Virámos a página da austeridade. Estamos a virar a página da pandemia. Vamos virar a página da guerra e juntos e só juntos conseguiremos, também, escrever as páginas de um futuro que queremos radioso. É com renovada energia, determinação e entusiasmo que iniciamos agora esta nova etapa, sempre com vontade de servir Portugal e de servir os portugueses.”



Source link

Leave a Reply

Your email address will not be published.