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Barbixas e o dilema entre sketches ou improviso: “Eu me sinto o Mick Jagger: eles só querem ouvir o ‘Satisfaction’”


Os Barbixas são o grupo de comédia de improviso mais bem-sucedido do Brasil. Anderson Bizzocchi, Elidio Sanna e Daniel Nascimento têm mais de 3,5 milhões de subscritores no YouTube. Nesta conversa com Gustavo Carvalho, Anderson e Elidio falam sobre possivelmente terem sido responsáveis pela ida de Ricardo Araújo Pereira ao Brasil, do dilema inicial por quererem fazer sketches além do improviso e da dificuldade em estar a par da comédia atualmente.

luciano bergamaschi

Costumam acompanhar a comédia em Portugal?
Elidio: Acompanhávamos mais a comédia antigamente, até porque a oferta de comédia, globalmente falando, era menor. Com os “streamings”, com o YouTube, com os “booms” da comédia que aconteceram no Brasil, tem tanta coisa que fica difícil acompanhar. Mas acompanhávamos muito na época em que “Gato Fedorento” tinha o programa de sketches na SIC e na RTP também. A gente amava, porque sempre gostámos muito de sketches.

Anderson: A coisa foi-se desmembrando e nós fomos acompanhando. O “Diz que é uma espécie de magazine”, os projetos do Ricardo Araújo Pereira. O que o Elidio falou é muito verdadeiro. Existe oferta de comédia para todo o mundo e ainda bem. Mas é difícil. Às vezes cometemos a gaffe de pessoas nos cumprimentarem e pensarmos: “Você é quem?”. E depois vamos ver e a pessoa está estourando, esgotou teatros. Vais ao YouTube e percebes que a pessoa é muito engraçada e não a conhecias. É complicado, temos sempre de correr atrás, mas é o nosso trabalho também.

Recentemente houve um evento da Netflix, em Los Angeles, o “Netflix is a Joke”, e teve direito a espetáculos de “stand up comedians” brasileiros: Rodrigo Marques, Bruna Louise, Maurício Meirelles, entre outros.
Anderson: Sim. E a gente também está com sorte, porque abrimos um clube de comédia aqui em São Paulo, recebemos muitos desses comediantes e aproveitamos para ter noção de quem são essas novas figuras. Tem várias surpresas boas de pessoas que estão no cenário da comédia de São Paulo a fazer espetáculos.

Ouvi-vos dizer algo muito interessante: quando o “Improvável” começou a esgotar salas vocês tinham um outro espetáculo – de sketches – que não esgotava salas, era o oposto. E na altura gostavam de fazer os dois formatos, mas estavam num dilema interessante para um artista: “Eu gosto tanto de fazer isto, mas ninguém quer saber neste momento, e há outra coisa que também gosto de fazer e que tem muito público.” Como é que foi essa decisão?
Anderson: Primeiro foi uma tentativa de decisão mercadológica. Vamos aproveitar e falar para as pessoas que também temos outros trabalhos.

Elidio: A gente “bateu cabeça” um pouco. Quando o “Improvável” estorou, no começo da internet, fomos chamados para fazer um programa na rádio. Chegámos na rádio. Você lembra dessa reunião? Na Jovem Pan?

Anderson: Lembro.

Elidio: Chegámos na rádio já com um projeto. Queríamos fazer sketches para rádio, tínhamos um piloto que já estava gravado. Aí o cara falou: “Não, nós queríamos que vocês improvisassem na rádio” E nós: “Não, improvisar na rádio não queremos, olha aqui este formato legal que temos.” E eles não queriam. Montámos o espetáculo de sketches E íamos gravar o espetáculo para meter na internet, as pessoas que já acompanhavam o “Improvável” iam ver. Mas não estavam comprando. Custou a dizer “Tudo bem, temos um produto que é o “cão-chefe” e vamos trabalhando quando tivermos vontade e inspiração neste outro produto.”

Anderson – Eu me sinto o Mick Jagger, aceitando que as pessoas querem ouvir o “Satisfaction”.

Elidio – Eu não me sinto tanto, acho.

Anderson – Mas você consegue imaginar o Mick Jagger falando para a banda: “Mas há esta outra música” e as pessoas falando: “Não, eles só querem ouvir o ‘Satisfaction’, dessa música ninguém gosta.” E ele diz: “Mas porra lembras-te de nós compondo? Foi incrível.” Mas ninguém ouve.

Elidio: Não é bonito de dizer, mas a nossa preparação foi uma aula de improviso e decidimos fazer. Com um ou dois anos de improvisação éramos inexperientes, jovens. Éramos muito autocríticos também, então achávamos que o nosso trabalho nos sketches era melhor do que o trabalho da improvisação. Se conseguíssemos comparar na mesma régua. Com o tempo fomos aperfeiçoando a improvisação. Mas queríamos muito mostrar ao público o material [de sketches] que tínhamos e que considerávamos bom: “Olha, isso aqui é o que já achamos bom.” Mas o público achava é que a improvisação é que já estava boa, e nós achávamos que ainda não estava.

Anderson – É o Mick Jagger!

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista. Ouça aqui mais episódios:



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