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A terra encantada de Nadal


Até o som da bola a bater na terra, entre serviços e como se fosse o latejar do coração, parecia mais cristalino do que nunca. Soava diferente, como se aquela ação pertencesse à melancolia. É certo que era o 59.º encontro entre Rafael Nadal (5) e Novak Djokovic (1), mas transpirava o entusiasmo juvenil das primeiras vezes.

Mas não era somente isso. Nas últimas horas Nadal lembrou-nos da finitude das coisas. Há duas semanas e meia não sabia se estaria ali, naquele court, o court dos courts para ele. “Por isso, estou só a desfrutar do facto de estar aqui mais um ano. E, sendo honesto, cada jogo que jogo aqui não sei se será o último. É a minha situação agora. Estou só a tentar desfrutar o máximo que posso e a lutar como posso para continuar a viver este sonho”. Um sonhador que vende sonhos.

As entradas dos majestosos tenistas no campo denunciou logo as simpatias. Se Nadal foi recebido como o rei bondoso, Djoko ouviu apupos, incomodando até John McEnroe – “Come on, come on!”.

O público demorava a fazer o oposto de empolgar-se e o tenista sérvio, logo no primeiro serviço, teve de esperar que chegasse o silêncio. O primeiro set começou mais lento do que o jogo anterior entre Alcaraz e Zverev, com bolas mais altas e vagarosas, mas foi só um prolongamento do aquecimento, pois mudaria. E que jogo seria este. Nadal começou logo a morder, conquistando imediatamente um break. Depois, munido de paciência e amortis, chegou ao 2-0. Djoko respondeu com um jogo de serviço em branco, mas o espanhol dominava por completo o encontro, com uma segurança e frescura tremendas. A tensão era palpável. O canhoto, com mais subidas à rede do que em tempos idos e com menos dependência da poderosa direita, chegou com naturalidade ao 5-1 e, após esperar pela acalmia da berraria de quem o admira, fechou o set com um 6-2 redondo e convincente, em 49 minutos.

Antes de o segundo set arrancar, enquanto descansava os músculos por ganir, Rafael Nadal mexia nas cordas da raquete, parecia um músico a afinar a guitarra. O espectáculo ia prosseguir dentro de momentos. O outro cabeça de cartaz, Djokovic, com um ténis ainda incerto e hesitante, voltou a sofrer uma quebra de serviço logo no arranque do set. Nadal aplicava com dedicação o seu veterano top spin de direita, um festival para o qual convidava as esquerdas a duas mãos venenosas, tanto ao longo da linha como cruzadas com uma intenção quase maldosa.

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Este set, que chegou com aparente facilidade ao 3-0 para o adivinhador de bolas maiorquino, de repente mudou. Foi como se o vento tivesse alugado outra boca para soprar, sem aviso prévio, virando tudo, tudo do avesso. De 0-3 passou para 4-3 para o sérvio, com direito a rugido que talvez tenha ecoado por todas as ruas de Paris. O sexto jogo para denunciar a barbaridade que sacudia aquela terra demorou qualquer coisa como 20 minutos. Novak começou a evitar os erros não forçados que vinha executando, principalmente de esquerda. Estava a responder mais dentro do court, estava mais agressivo, já propunha ser mais protagonista em vez de mero sofredor ou underdog. Afinal, era um duelo entre titãs deste desporto, ambos com 35 anos e mais de 1000 vitórias cada um. Ninguém olha de cima para ninguém. Djokovic acabaria por vencer este segundo set, depois de uma bola fora do adversário, que estava menos letal no jogo de serviço (6-4). Por esta altura, o nível de ténis naquele retângulo parisiense, do castanho mais poético que existe, era assombroso.

Nunca é tarde para lembrar que estes dois monstros das raquetes correm pelo lugar mais alto do olimpo do ténis. Se Nadal está atrás do 22.º Grand Slam, depois de se ter distanciado de Roger Federer (20 majors) e Novak (20) finalmente, no Open da Austrália, Djokovic procura o 21.º. A história do ténis escrevia-se a cada bola que estes dois atletas batiam. No marcador, 1-1. No relógio, 2h16.

O terceiro set não destoou dos outros: quebra de serviço para Nadal. A combinação mágica serviço-direita trataria de o fazer levantar voo até ao 6-2. Djoko tentou alguns infelizes amortis, uma palavra que o corretor desta máquina de escrever da modernidade sugere mudar para “amor”, embora neste caso fosse desamor. O espanhol estava implacável e o sérvio acumulava erros. Adivinhava-se, a qualquer altura deste duelo, o choque violento entre as mentes férreas. O sérvio vestia um ar carregado, desconfiado até, mas sabemos todos o que a casa gasta.

Quando Djokovic chegou ao 3-0 no quarto set, mesmo depois de ter batido com a raquete com violência contra a rede porque a bola teimava em subir demasiado quando a beijava, já se adivinhava um quinto set, algo que só acontecera três vezes entre ambos. A mentalidade do tenista dos Balcãs exibia-se finalmente, vaidosa, com rumores de insuperabilidade. Se o nível do sérvio subiu, o do espanhol caiu para níveis humanos, tirando porventura o pé aqui e ali no jogo de serviço do rival. Certo é que, nesta altura, os pontos iam ficando mais curtos e sorriam muitas vezes para o n.º1 do circuito: 5-2 para Djoko.

Era quase 1h da manhã na capital francesa quando começou então a construir-se, sorrateiramente e sem ninguém dar por ela, uma narrativa mágica. Este pedaço de história desculparia qualquer olheira no dia seguinte, certamente. Nadal chegou ao 5-3, mudou a raquete, e assinou mais um break (5-4), voltando a crescer como crescem as feras quando estão em perigo. E continuou: 5-5. Já se perdia a conta às pancadas em inside out de parte a parte, quase sempre belas e importantes como o sorriso de uma criança. O público vivia num impasse: ora queria prolongar aquela jornada especial, ora dava mais do seu nervo a Rafael Nadal, campeão naquele torneio em 13 edições.

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Durante a partida, em fugazes momentos, carregou-se por aqui no “play” no jogo de estreia entre ambos, também em Roland-Garros, em 2006. Os berros, menos selvagens e mais juvenis do que agora, por vezes sincronizavam-se com o encontro desta noite, o que tinha alguma beleza. Na altura, Djokovic desistiu por uma lesão e o espanhol da melena despreocupada seguiu para as meias-finais do torneio.

De volta a 2022, Novak fez então o 6-5 e Nadal devolveu-lhe a simpatia, deixando tudo empatado depois de salvar dois set points. À entrada para o tie break, o relógio no court registava uma hora de jogo e já haviam sido superadas as quatro de encontro. O canhoto voltou a parecer mais fresco, mais certeiro e letal: 1-0, 2-0, 3-0. “Nadal, Nadal, Nadal!!”, ouvia-se na bancada, quase sempre indisciplinada na hora dos serviços, inaugurando repetidamente os insuportáveis “xxxxiuuuuu” do cinema.

E reduziu Djokovic, 3-1. A expectativa do quinto set foi finalmente eliminada quando o sérvio começou a errar ainda mais, permitindo o 4-1, 5-1 e 6-1 para Rafa. Seriam cinco match points para o maior campeão da história deste torneio. Novak, duro como só os mais duros o são, resistiu: 6-2, 6-3, 6-4. Mas o derradeiro ponto chegou mesmo, 71 minutos depois do início do set, com uma esquerda a duas mãos de Nadal, apanhando o rival em contrapé.

Os olhos de Rafa brilhavam, agradeciam o apoio das bancadas e quem sabe a fortuna de o pé, o tal pé que o fez habituar-se a conviver com a dor, não ter miado em agonia. Estava emocionado, o amor que lhe lançavam de longe podia quase rasgar um planeta inteiro.

“É incrível jogar aqui. Merci, merci, merci”, ia dizendo numa tentativa honesta de responder às perguntas em francês. “Toda a gente sabe como é importante para mim jogar aqui. Sentir o vosso apoio é especial.” Quando a ex-tenista Marion Bartoli, finalmente em inglês, questionou sobre a natureza daquele jogo que se espreguiçou até às 4h12, o que fez o surpreendido Nadal olhar para trás para o relógio, ele admitiu que “foi muito duro” jogar contra Novak, “um dos melhores jogadores da história”. Resumindo, “foi uma daquelas noites mágicas para mim”, no “court mais especial da minha carreira”, “no lugar mais importante”, Paris.

À saída do Court Philippe Chatrier, para o merecido banho e descanso fora de horas, Rafael Nadal mordeu o lábio como quem diz ‘eu voltarei por mais’.



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