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A seleção da Ucrânia vai jogar por um lugar no Mundial, mas principalmente por “um país inteiro que quer sentir que está vivo, que é livre”


Em novembro de 2021, o calendário ainda foi seguido à risca. A Ucrânia entrou em campo contra a Bósnia e Herzegovina para disputar o último jogo da fase de grupos de qualificação para o Mundial de 2022. A fase seguinte seria o play-off, em março deste ano, frente à Escócia, mas a invasão russa na Ucrânia obrigou ao adiamento do encontro, à interrupção de qualquer competição desportiva e à exigência de que todos os homens ucranianos com mais de 18 anos permanecessem no país para o defender.

A FIFA e a UEFA chegaram, mais tarde, a um acordo que determinou que o jogo frente à Escócia seria em Glasgow nesta quarta-feira, 1 de junho, e o vencedor dessa partida iria defrontar o País de Gales em Cardiff, a 5 de junho. A seleção ucraniana está, assim, de regresso, mas quando as equipas pisarem o relvado do Hampden Park, é bem provável que pareça um Escócia contra grande parte do mundo — parte que espera ver esta equipa dar uma alegria ao seu país durante uma guerra.

Os próprios ucranianos acreditam nisso mesmo: “Penso que todos serão simpatizantes da Ucrânia. Vimos isso recentemente na Eurovisão, há apenas algumas semanas. Tenho a certeza de que todos, exceto a Escócia, estarão a apoiar a Ucrânia na quarta-feira”, disse o adepto ucraniano Martyn Chymera ao programa “Good Morning Scotland”, da “BBC Radio”.

Na semana passada, Andy Robertson, capitão da Escócia, disse que a sua própria equipa tem que se desprender da simpatia que sente pela Ucrânia. “Provavelmente, todos no mundo querem que a Ucrânia vença. Se fosse qualquer outro país, provavelmente quereria que eles ganhassem, mas, infelizmente, estão a jogar contra o meu país e temos de nos colocar no seu caminho”, disse à “BBC”.

Mas este jogo será muito mais do que um simples jogo de futebol: “Penso que os arrepios serão sentidos em todo o mundo. Trata-se de mostrar que, apesar dos imensos horrores da guerra e do facto de a Ucrânia se estar a defender contra o segundo exército mais poderoso do mundo, os milagres acontecem. Estamos a rezar por um milagre muito pequeno esta quarta-feira”, afirmou Andriy Smondulak, um dos ucranianos que vai assistir ao jogo ao estádio, durante o mesmo programa de rádio.

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No momento em que o jogo foi adiado para junho, ninguém pensou que a guerra ainda estivesse a decorrer tanto tempo depois. Mas ainda está. Para se prepararem para o play-off, os jogadores e equipa técnica da Ucrânia tiveram autorização temporária para deixarem o país e se reunirem na Eslovénia. “Quando aqui chegámos, vimos a grande diferença, na Ucrânia não conseguimos encontrar nada, nem sequer gasolina. Saindo de lá e chegando à Europa, o contraste, há de tudo, as pessoas estão felizes, sorridentes. Paz”, disse Oleksandr Petrakov, selecionador ucraniano, ao “El País”.

E não é por estarem fora da Ucrânia que vão deixar de lutar.

A seleção tem uma missão que o presidente do país, Volodymir Zelenski, integrou na estratégia desenhada para resistir à Rússia: conseguir a qualificação para o Campeonato do Mundo no Catar. Os jogadores foram respondendo à chamada ao longo do mês de maio. Chegaram alguns diretamente da Ucrânia e outros, que estavam em representação de clubes internacionais. Todos com a mesma mentalidade de qualquer outro ucraniano: vencer.

“Temos de ganhar em todas as frentes: na guerra, na frente cultural e na frente desportiva”, garantiu Oleksandr Karavayev, jogador do Dínamo Kiev, ao jornal espanhol.

Mudança de prioridades

Até aqui, quando a seleção se juntava para preparar qualquer jogo ou competição, o tema era só um: o futebol. Mas a situação mudou e, ainda que o foco continue a ser vencer as partidas que têm pela frente, muitos destes jogadores ou membros do staff têm outras coisas em que pensar.

“Falei com cada um deles para lhes perguntar onde está a sua família, como estão agora os seus pais, mães, esposas, filhos. Antes, quando havia paz, falávamos apenas de futebol. Mas agora, por exemplo, temos um massagista cujo pai esteve em Mariupol e ainda não há notícias dele. Muitos pais de futebolistas aderiram ao exército. É por isso que temos de treinar e falar sobre futebol, mas também sobre esta situação”, continuou o treinador.

Ao mesmo tempo, o futebol prova mais uma vez que é muito mais que um desporto e pode ser uma ferramenta bastante importante na hora de dar visibilidade a temas de enorme relevância a nível social e político.

“O futebol é uma grande força, a oportunidade de mostrar algo mais, de representar um país inteiro que quer sentir que está vivo, que é livre, independente, que pode lutar por si próprio pelo seu lugar no mundo. O futebol é uma plataforma social e política muito importante”, diz Abraham Campomar, analista da seleção ucraniana, ao “EL País”. Oleksandr Pikhalyonok, jogador do Dnipro, vai ainda mais longe e garante que o jogo de quarta-feira “é o jogo de futebol mais importante da história da Ucrânia”.

Quando o play-off acabar, quando acabarem os jogos que têm agendados para a Liga das Nações e quando terminar a concentração na Eslovénia, não restam dúvidas: “Ali está a minha mulher. Os meus filhos estão na Ucrânia. Eu quero ir para casa, isso é certo. Gosto muito do meu país, gosto muito de Kiev, nasci lá, estive lá toda a minha vida. É por isso que vou para casa”, garantiu o selecionador ucraniano.



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